sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

natal


Ausência de ares de festa. Neste ano não sei o que é, pra que é, por que é, só deixo passar. Com tudo tem sido assim, nesse ano. Digo, o próprio ano foi assim. Tão cheia de nada, tão vazia de tudo. O tudo que dói, mas não machuca. O tudo que já não sangra, mas ainda incomoda. A ausência escandalosa de uma cadeira à mesa, de um abraço grande e acolhedor de homem: nem o do beijo na testa para dormir, nem o do beijo na boca para tirar o sono. Ausência de vida pulsante. Completude de neutralidade. Sem sorriso, sem lágrima. Nem felicidade, nem tristeza. Sem pensamentos, sem palavras. Só a ausência. Seca. Crua. Nua. Dura. Lâmina que me corta em silêncio. Cá estou. Consentindo. Aceitando. Agradecendo. Quase como se já não importasse. Mas importa. Já passa da hora.

Cristina Menezes

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

dama da noite


Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?

A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente. Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí, sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar na roda, meu bem.

Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar. Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara, tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. Essa tontura que você está sentindo não é porre, não. É vertigem do pecado, meu bem, tontura do veneno.

Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.

Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas, envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.


Adaptado de Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

sensações


Às vezes eu penso em procurá-lo, para uma conversa singela, amenidades talvez. Tenho dúvidas quanto à minha real vontade de dizer o que senti naquela perda toda, e provavelmente ouvir em resposta apenas ataques a minha maneira de agir ou, tão somente, seu silêncio. Sinto mesmo é necessidade de um fim... algo incrível após tanto tempo dele agarrado à minha mente. Não o amo mais, como possa parecer. Cheguei a essa conclusão após realmente tempo demais, quando vi que nas minhas lembranças já não havia rosto, só físico, só mãos, e língua, e braços, e pernas. Ele agora é só mais um. Mesmo assim. Só sinto que... falta. Falta algo, não alguém, não ele. Falta eu. Falta algum pedaço de mim que ficou perdido no meio daquela dor toda. E agora é quase como se eu pudesse resgatar minha confiança entre uma xícara de café e meia dúzia de palavras e sorrisos constrangidos pela falta de assuntos findos. Quase como se eu pudesse recuperar um grande pedaço do meu amor-próprio se ao menos pudesse obtê-lo uma vez mais; me dar prazer ao lhe impingir frenéticos e incontroláveis tremores sob minhas unhas. Algo que só eu pudesse fazer. Intensidade. Aquela, que só eu sabia fazer. Sabe como é. Me invade aquela mesma sensação irracional que tivera quando o conheci, de que só ele saberia enlaçar de forma única toda a pele nua; agora também, a sensação de que não acabou, não o peito sob o meu rosto ou as mãos dançantes pelo meu cabelo, mas a sensação das coxas rijas presas às minhas, da língua esperta pela minha boca. Como antes, tento convencer minha mente de que é loucura, mas será?! O instinto animal já calou minha mente e ferveu meu sangue uma vez. E, embora insano, eu quero mais. Mais, sempre mais. É cansativo ter sonhos cheios de eletricidade todas as noites antes de dormir. Outros? Talvez. Seja porque eu gosto do difícil, ou seja lá por que, talvez eu nunca me esqueça destas sensações sem satisfazê-las. Só me falta a coragem. Para dar os passos uma única vez, para não olhar o rosto pela primeira vez, para despir uma calcinha rendada mais uma vez, para explodir no meu corpo pela liberdade de todas as vezes.


Cristina Menezes

terça-feira, 16 de novembro de 2010

metade


Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe seja linda, ainda que tristeza. Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço. E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada. Porque metade de mim é o que penso, mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância. Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor, e a outra metade também.


Adaptado de Oswaldo Montenegro

domingo, 31 de outubro de 2010

coisas más



Fio de luz se expandindo pela madeira do chão encerado. Talvez início de manhã fria de inverno, mas não no calor abafado daquele quarto barato de cheiro adridoce. Sapatos jogados... os dele, marrom sangue coagulado, perto da cômoda; os dela, vermelho sangue fresco, ao lado da poltrona de tecido, exoticamente verde musgo. Roupas, desconhece-se, talvez do outro lado da cama. Edredon de flores amassado no chão. Um pé delicado anunciando-se de bruços pela borda direita da cama, escapando ao lençol. Dobras, muitas dobras brancas, costas nuas, mechas escuras de cachos castanhos espalhando-se pelo travesseiro. Dormia pesado e sonhava leve. Solidão de pecados. Luxúria da noite esvaindo-se. Dele, só o cheiro na pele dela e os sapatos no chão. Não se ouvia som. Tudo ela, toda dele. Nós dois. Observo. Fio de luz se expandindo...

"I wanna do bad things with you."

Cristina Menezes

faltava


Olhou a nudez no espelho.
Sentia, não via, seduzia-se
Como dançasse por dentro.
Encontrou curvas, mas faltava.

Então dançou serpente.
Sorria, não ria, conquistava-se
Como corresse por dentro.
Encontrou ritmo, mas faltava.

Então correu sem destino.
Queria, não temia, conhecia-se
Como namorasse por dentro.
Encontrou tempo, mas faltava.

Então namorou sozinha.
Tremia, não gemia, abandonava-se
Como realizasse por dentro.
Encontrou prazer, mas faltava.

Então realizou o sonho.
Tivera, não desejara, possuia-se
Como existisse por dentro.
Encontrou vazio, mas já não faltava.

Então existiu de verdade.

Cristina Menezes

sábado, 30 de outubro de 2010

fingimento



Tempo não é hora corrida nos relógios do mundo. Sentimento de tempo é que faz tempo. E para mim faz... tempo. Tanto tempo. Afinal, esta é mesmo uma década de ano a sós. Espécime raro da procura interior, descoberta passada, fuga presente, refúgio futuro. Pensamentos transbordam na inocente falta de compreensão. Sentimentos mergulham na secretude do autoconhecimento. Alegria que dói, tristeza que sorri.

"O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente." (Fernando Pessoa)

Cristina Menezes

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

banho


Constante sensação de toalha caída, de nudez gostosa, de passos em direção ao chuveiro. Tudo que antes me rodeava ou encobria sumiu rápido, não tanto quanto se me arrancassem, mas nem tão lentamente que impedisse o choque do vento na pele quente. E aquele calor se foi, ardência tamanha, e com ele aquela sede, ansiedade, insegurança... ou, nem toda a insegurança, já que ainda resta desconhecido: na água, primeiro a mão, depois o corpo, assim já não me machuco tanto. E a liberdade. Ah! A liberdade das primeiras gotas de água deslizando pelo corpo. Sensação de bem-estar solitário, que tão pouco posso sentir durante os minutos apressados do dia. Sensualidade, independência, amor próprio, segurança... maturidade. Uma nova versão de mim, com tantas novas possibilidades, repleta de paz, acostumada a um novo tipo de calor, uma intesidade gostosa, pronta para se reenvolver. Nova toalha. Espelhos que me sorriem nova mulher, de esperanças lavadas.


Cristina Menezes

sexta-feira, 2 de abril de 2010

êxtase


O êxtase dura pouco e é intenso.
É bom, mas começar de novo é ainda melhor.

A partir de agora serei fiel ao meu desejo.
Afinal, intensidade, era apenas isso, tudo que eu sabia fazer.

Perder-se também é caminho.

Adaptado de Mora Fuentes, Clarice Lispector e anônimos

sexta-feira, 26 de março de 2010

equações


Resolvi parar de escrever. Não para sempre, mas por um tempo que acaba agora, quando descobri minha ânsia por vomitar essa sensação de soco na boca do estômago. Queria nascer com coração de papel: assim os sentimentos derramariam em forma de palavras escritas, poupando este trabalho tradutório. Daria para reciclar o coração, ou amassar e jogar fora - se bem que, isso, a gente ou os outros já fazem por nós. Seria bom se as relações parassem de ser, no fundo, uma equação matemática... Você pesa os prós e os contras, resolve jogar tudo para o mesmo o lado (a sua vida) e quando tudo se iguala a zero você enxerga as raízes do problema. Mas é assim, num dia a gente desanima de fazer contas, noutro compra uma calculadora. É, pode ser triste viver de palavras e números.


Cristina Menezes